A classe operária vai ao paraíso, por Luísa Anabuki

A história retrata o cotidiano de Ludovico Massa (Gian Maria Volonté), operário de uma fábrica na década de 1970, que, para atingir a marca de trabalhador mais produtivo, sacrificava tempos de descanso ou mesmo as medidas de saúde e segurança do trabalho, realizando manutenção de máquinas em funcionamento para economizar tempo.

Lulu, como era conhecido, não se identifica com os outros trabalhadores e seu comportamento criava conflitos. O reconhecimento de seu empregador vinha na medida em que o resultado de seu trabalho era sempre acima das médias dos outros trabalhadores. Esse quadro muda quando ele sofre um acidente de trabalho e, em decorrência disso, perde um dos dedos da mão. Esse momento é decisivo para que ele comece a questionar o modelo de exploração de trabalho da fábrica (taylorista-fordista). Em meio a isso tudo, é deflagrada uma greve que questiona o próprio sistema de metas e os seus riscos para os trabalhadores. O resultado é a demissão dos envolvidos com a paralisação, entre eles Ludovico. Após as negociações, há sua readmissão e o sistema de metas é revisto.

Nesse breve resumo, é possível extrair as diversas matérias trabalhistas envolvidas. Quanto ao meio ambiente de trabalho, a importância de sua higidez, das medidas de saúde e segurança, da necessidade de prevenção e precaução dos acidentes de trabalho, a premência do uso dos equipamentos de proteção coletiva e individual, são todas questões que se colocam. Ainda neste universo, temos a discussão sobre o impacto dos movimentos repetitivos e da inobservância dos tempos de recuperação e repouso sobre a saúde dos trabalhadores.

Também é essencial refletir sobre a organização dos trabalhadores por meio dos sindicatos, a conquista de direitos possibilitada pelo movimento grevista, o papel das estabilidades provisórias de emprego e a vedação ao lockout. Chama atenção ainda como os modos de produção, quando desconsideram o elemento humano como fator essencial, podem gerar adoecimento e até mesmo assédio moral organizacional, pela imposição abusiva de metas de produtividade e pela exigência de adesão subjetiva.

É impressionante como um único filme pode representar diversas das questões históricas e atuais do Trabalho, mas fica, em especial, a inquietação sobre o futuro. Quando se verifica que os laços de identidade entre os trabalhadores estão cada vez mais sutis (Indústria 4.0, Era do “Colaborador”) e que as formas tradicionais de organização passam por uma crise de representatividade, mas que, simultaneamente, há espaços de deliberação e diálogos revolucionários, como a internet, a pergunta que surge é: como serão as novas formas de organização e manifestação dos trabalhadores?

 

Ficha Técnica

Data de lançamento: desconhecida (2h 05min)

Ano de Produção: 1971

Direção: Elio Petri

Elenco: Gian Maria Volonte, Mariangela Melato, Salvo Randone mais

Gênero: Drama

Nacionalidade: Itália

* Luisa Anabuki é Procuradora do Trabalho e curadora da Filmoteca do Trabalho 

 

24 de outubro de 2019

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