Mudança de carreira: nove em cada dez brasileiros estão infelizes no trabalho


Especialistas garantem que são durante as crises que as melhores oportunidades surgem; confira o passo a passo para realizar a transição de carreira

Há cinco anos, a modelo Izabela Tavares abandonou os saltos e as passarelas e está à frente de sua padaria, que já tem dois endereços em São Paulo – Foto: Arquivo pessoa/Instagram

Responda rápido: o que você costuma pensar antes de dormir e nas noites de domingo? Normal querer ter mais momentos de tranquilidade e lazer, mas se você fica a todo momento pensando o que está fazendo da sua vida e contando os segundos para as férias, talvez seja hora de mudar e repensar a carreira. Mas se esse for o seu caso, fique tranquilo, você não está sozinho. O alto índice de insatisfação e infelicidade no ambiente corporativo tem explicação. Nove em cada dez brasileiros estão infelizes em seu atual ambiente de trabalho, segundo uma pesquisa realizada pelo aplicativo Survey Monkey. O consultor de carreiras Fredy Machado também analisou a insatisfação em 21 Estados brasileiros e constatou que 64% das pessoas gostariam de fazer algo diferente do que fazem hoje para serem mais felizes.

Para o coach master e especialista em negócios Alex Bax, diante da crise e de novos cenários, muitos devem sair de 2020 em dúvida sobre a carreira. Se esse é o seu caso, o momento certo pode ser agora. Segundo Bax, é durante as crises que as oportunidades surgem. Até 2030, 85% das profissões devem ser extintas, segundo um estudo realizado pela Dell. E ainda de acordo com o Fórum Econômico de 2018, até 2025 pelo menos 133 milhões de novos empregos devem ser criados. Ou seja, a hora de se reinventar é agora, como bem lembra em seus best-sellers, Stephen Covey. O americano é autor da teoria 90/10. Segundo ele, apenas 10% você não controla o que acontece na sua vida, mas você tem em mãos 90%. Tudo vai depender de como você irá reagir às mudanças.

“É uma grande oportunidade de a pessoa avaliar o que ela quer, o que a motiva. A vida profissional das pessoas costuma ser levada ao acaso, você vai seguindo o que vai aparecendo e nem sempre é o que você quer. Por isso, uma crise pode ser um grande motivador, você é obrigado a mudar seja por uma demissão ou qualquer outro motivo. É preciso mais do que o dinheiro para se levantar da cama todos os dias. Nesse momento é que as pessoas abrem os olhos para oportunidades que estavam ali na frente e nunca viram”, pontua Bax.

Mas atenção! Bax aconselha avaliar bem o que fazer para atingir a mudança desejada. Segundo ele, a principal motivação para a troca de área é a possibilidade de mais sucesso e aprendizados em nova carreira. A dica é fazer a transição aos poucos. Enquanto continuar no antigo emprego, vá fazendo networking e se apresentando ao mercado. As redes sociais estão aí para auxiliar nesse trabalho.

“O primeiro passo é trabalhar o autoconhecimento. Faça um teste de aptidão profissional e analise seu perfil comportamental, isso vai te ajudar encontrar quais áreas são melhores para seu perfil. Depois, é se planejar e conhecer o terreno antes”, explica o coach, que alerta para aqueles que querem empreender.

“Empreender é bom, mas é preciso cuidado. Saiba bem o mercado que vai atuar, não invista toda sua reserva financeira ou seu fundo de garantia em um novo negócio, 80% das empresas morrem nos quatro primeiros anos justamente pela falta de planejamento. Estude, porque insatisfação com a carreira ou com a sua liderança no atual emprego todos têm”, analisa.

Mão na massa. Quem cansou de viajar o mundo de passarela em passarela e colocou a mão literalmente na massa foi a modelo Izabela Tavares, 35. Há cinco anos ela abandonou os saltos e está à frente de sua padaria, que já tem dois endereços.

A paulistana decidiu largar o mundo da moda depois que, entediada com as passarelas, se apaixonou pela gastronomia. Aos 25 anos, decidiu cursar gastronomia e foi conciliando a carreira pelo mundo enquanto estudava panificação. “Eu fui feliz como modelo, mas eu comecei a trabalhar aos 13 anos, fui terminar meus estudos mais velha, porque não tive tempo. A vida era viajar o tempo todo. Numa certa idade, eu senti que teria prazo de validade, é triste, mas acontece. Me faltava também propósito. A passarela não me fazia mais vibrar, o que eu gostava era de viajar e conhecer novas culturas através das comidas”, conta ela, que começou a fazer pão em casa mesmo.

“Relutei de início a gastronomia, porque era um ambiente só de homens. Comecei a fazer pão em casa, fazia a faculdade e estudava conciliando com os meus trabalhos de modelo, porque tinha medo de mudar drasticamente e não ter renda, até que vi que restaurantes e chefes importantes de São Paulo compravam meu pão”.

Depois de dois anos sozinha, hoje a padeira sonha em abrir mais um endereço em São Paulo. “Quando você segue seu coração, não tem como dar errado, eu acreditei e coloquei minhas energias”.

Decisões que transformam a vida
Antes de se aventurar no mundo das artes plásticas, Andréa Tolaini, 35, trabalhou por sete anos em uma agência de publicidade. Produtora de conteúdo de grandes artistas e eventos, como Natura Musical, Gilberto Gil e Nando Reis, Andréa começou a transição de carreira só em 2009, depois que sua mãe, a artista visual Maria Inês, faleceu.

“Ir para as artes sempre esteve no sangue e na minha casa, mas era uma vontade reprimida. Apesar de ter uma mãe artista, não fui incentivada a isso pela questão da instabilidade financeira. Não arrependo das minhas escolhas, mas poderia ter trilhado esse caminho antes, porque, com a morte da minha mãe, me vi olhando para onde minha vida estava indo, eu estava sendo irresponsável comigo mesma, com medo de frustrar os outros. O trabalho começou a ser um fardo para mim, eu não cabia dentro da minha angústia”, conta.

Andréa pediu e demissão em 2011 e foi morar oito meses em Londres para estudar. Quando voltou ao Brasil, decidiu focar seus trabalhos no universo feminino. “Não romantizo essa transição de carreiras, eu tive que me planejar, foi tudo muito organizado e pensado por anos. Precisei juntar dinheiro, reserva essa que me ajuda até hoje a me virar. Mas eu tenho uma série de privilégios, não tenho filhos, sou branca e tive apoio, porque tem mulheres que não tem tempo nem para fazer escolhas, passam a vida para trabalhar”, afirma.

“Não é mágico, hoje, eu vivo para trabalhar também, não tenho estabilidade para ter filhos, por exemplo, preciso ainda ter emocional para bancar a escolha, queria que fosse mais simples e acessível a todos essa possibilidade”, confessa.

Há cinco anos a jornalista Carolina Sbrana Sciotti, 36, saiu de São Paulo e foi parar em uma vila de pescadores no interior do Ceará. A mudança não foi por causa de um emprego, mas em busca de um propósito de vida. Infeliz na profissão, a paulistana trabalhava há 12 anos como produtora de vídeo freelancer. O plano era só viver uma vida mais simples, mas a paixão pela natureza a fez criar uma fábrica de castanha de cajú. Hoje, a empresa já tem 18 funcionários diretos e mais de 200 indiretos.

“Quando cheguei, morei numa casinha sem água encanada, sem forno, era tijolinho e sem internet também. Me tornei outra pessoa. Descobri uma fábrica abandonada que estava parada e entendi que não queria mais viver no desgaste da vida urbana. Foi a melhor decisão da minha vida, se hoje eu tenho dois filhos foi por essa escolha, em São Paulo eu não teria tempo para isso. Errei muito no começo para me descobrir nessa profissão, bateção de cabeça, muito estudo também, mas acho que precisamos de coragem para escutar a intuição e o nosso chamado”, afirma.

Quer mudar de carreira? Confira as dicas dos especialistas

Pesquise: vá a fundo na área que pretende se iniciar, mesmo essa sendo uma escolha definitiva ou conhecida; saiba qual é o seu perfil profissional para que você não seja impulsivo. Dificuldades haverão em qualquer área.

Planejamento: além analisar quais são suas potencialidades e realizar um planejamento financeiro, faça a transição de carreiras gradualmente. Mas não se acomode, trace metas e objetivos.

Networking: conheça e faça contatos com as pessoas desse novo ramo de trabalho. Redes sociais como o LinkedIn são ótimas para encontrar novos profissionais de um mesmo segmento. Faça cursos e estude; além de se atualizar, é uma excelente ferramenta para conhecer novos colegas.

Humildade: seja realista e reconheça suas fragilidades. Mudar de área não é tarefa simples, mesmo sendo prudente e avaliando os impactos da mudança tanto na vida pessoal como financeira. Saiba que ainda terá muito que aprender.

Coragem: Não dê desculpas ou se vitimize pelas dificuldades. Comece hoje a mudança que você quer ser, não adie os planos ainda mais.

Fonte: O Tempo – Por LETÍCIA FONTES.


3 de setembro de 2020

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