Trabalho remoto na verdade significa dias mais longos – e mais reuniões


Jornada de trabalho aumentou em média 48,5 minutos com home office nas semanas seguintes aos lockdowns do coronavírus; enquanto isso, quantidade de reuniões cresceu 13%, segundo estudo

A enorme transição global para o trabalho remoto desde o início da pandemia trouxe algumas vantagens: mais flexibilidade, menos deslocamento, calças mais confortáveis. Mas há pessoas que percebem que essa grande experiência de trabalhar em casa também traz muitas desvantagens – dias mais longos, mais reuniões e mais emails para responder – e agora contam com o respaldo de dados sobre 3,1 milhões de trabalhadores.

A jornada de trabalho média aumentou 48,5 minutos nas semanas seguintes aos lockdowns, e a quantidade de reuniões cresceu 13%, demonstrou um artigo publicado pelo Bureau Nacional de Pesquisa Econômica.

O estudo, que examinou dados anônimos de e-mail e agenda de mais de 3 milhões de usuários de um provedor de tecnologia não identificado, também encontrou aumentos significativos nos e-mails internos e na duração das reuniões.

Os dados não chegam a surpreender as pessoas que vêm trabalhando de casa em meio a esta implacável crise de saúde – especialmente aquelas que também fazem malabarismos para cuidar da educação dos filhos. Ainda que entrevistas pontuais e pesquisas menores já tenham apontado para resultados semelhantes, diz Jeffrey Polzer, professor da Harvard Business School e um dos coautores do artigo, “o que nosso estudo acrescenta é uma documentação em escala do padrão geral”.

O artigo, que analisou dados de mais de 21 mil empresas e em 16 grandes áreas metropolitanas em todo o mundo durante as oito semanas antes e depois dos lockdowns locais, representa apenas os trabalhadores que usam o produto do fornecedor de tecnologia. Embora sejam bem amplos, os dados correspondem a apenas uma fração da força de trabalho.

Mas o estudo apresenta um retrato de como os hábitos de trabalho e estilos de comunicação mudaram para muitos trabalhadores que passaram a enfrentar o trabalho remoto, especialmente quando a economia piorou, as demissões de colarinhos brancos aumentaram e as ansiedades profissionais explodiram.

“As pessoas estão com medo – medo em relação ao emprego e à economia – então elas querem ter certeza de que estão sempre respondendo a e-mails e mensagens e sempre no Slack”, disse Cali Williams Yost, fundadora da consultoria de trabalho Flex Strategy Group. A situação se agrava com a falta de habilidades de gerenciamento para definir o tom certo para o trabalho remoto, disse ela. “É uma mistura tóxica de pressão e esgotamento”.

Para muitos trabalhadores, um ponto positivo dos resultados do artigo é que o tempo total agendado para as reuniões ficou menor: caiu 11,5%, ou quase 20 minutos por dia, de acordo com os dados, e a duração média das reuniões teoricamente diminuiu (não se sabe quanto as reuniões duraram de fato). Com o tempo, o número de e-mails também retornou aos níveis pré-lockdown, disse o artigo.

O relatório encontrou algumas diferenças entre os trabalhadores nos Estados Unidos e na Europa. Em muitas cidades europeias, por exemplo, a redução na duração das reuniões foi gritante, ao passo que a diminuição nas cidades americanas foi relativamente pequena. E, embora tenha permanecido alta em algumas cidades, entre elas Nova York, a jornada de trabalho voltou à linha de base em outras durante o período que os pesquisadores estudaram.

Polzer faz questão de observar que um dia de trabalho mais longo não significa necessariamente que as pessoas trabalharam mais horas naquele dia. A análise dos primeiros e mais recentes dados de e-mail e agenda não leva em consideração aquelas pessoas que se ausentaram para cuidar de pais idosos, lidaram com várias interrupções na escola das crianças ou simplesmente optaram por passear com o cachorro pela terceira vez naquele dia.

Mas um dia dividido em reuniões mais curtas ou que se estendem até a noite – mesmo que o número total de horas trabalhadas não seja maior – também pode trazer desvantagens. “Você trabalha em casa, mora no trabalho, ou as duas coisas?”, disse Polzer.

“Quando tentamos gerenciar nosso trabalho em casa, é muito difícil desligar do trabalho. Isso sempre aconteceu, desde que nossos telefones nos seguiram até em casa, mas o fenômeno agora cresceu”.

Polzer disse que os pesquisadores não categorizaram os dados por gênero para avaliar possíveis diferenças nas jornadas de trabalho de homens e mulheres. Nos meses que se seguiram ao início da pandemia, muitos ficaram preocupados com a possibilidade de as mulheres sofrerem os maiores impactos de longo prazo em suas carreiras, já que as escolas e creches continuam fechadas e que as mulheres perdem empregos de maneira desproporcional, ou são forçadas a fazer escolhas dolorosas entre a carreira e o cuidado dos filhos.

Com o tempo, disse Polzer, essa tendência de jornadas cada vez mais longas não será sustentável. “As organizações estão tentando descobrir como lidar com esse tipo de trabalho”, disse ele. “As pessoas vão ficar esgotadas se não repensarmos como estão gastando seu tempo”.

/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Fonte: Jena McGregor – The Washington Post.


17 de agosto de 2020

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