Divisão de “trabalho invisível” tem impacto na rotina da mulher na cidade.


Uma novidade sobre a edição deste ano da pesquisa “Viver em São Paulo: Mulher”, realizada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope, é a presença de um dado extremamente complexo de ser quantificado, mas proporcionalmente necessário para entendermos em que ponto estamos na luta por melhorias da qualidade de vida da mulher na sociedade — e também para ajudar na construção de possíveis novos caminhos que avancem nesse debate.

Quando perguntados sobre como definem a divisão de trabalhos domésticos, como lavar a louça, a roupa, preparar comida ou limpar a casa no geral, 45% dos paulistanos afirmam perceber que os afazeres são divididos igualmente entre homens e mulheres.

A ideia de tentar traduzir em números essa questão vem da falta de reconhecimento de que trabalho doméstico, como o nome diz, é, sim, um trabalho. “O que quisemos mostrar com esse novo dado é que as tarefas domésticas são ainda, na maioria das vezes, realizadas por mulheres. E que esse é um tipo de trabalho invisível,” explica Carolina Guimarães, coordenadora da Rede Nossa São Paulo.

O mesmo conceito de “trabalho invisível” foi recentemente aplicado pela Oxfam em um relatório divulgado em janeiro de 2020. Em “Tempo de Cuidar – O trabalho de cuidado não remunerado e mal pago e a crise global da desigualdade”, a organização relembra que, apesar de ter extrema importância para o funcionamento da sociedade como um todo, os cuidados da casa e família ainda são ignorados na construção de indicadores econômicos e agendas políticas.

Para a Oxfam, meninas e mulheres ao redor do mundo trabalham 12,5 bilhões de horas todos os dias gratuitamente realizando afazeres domésticos dentro da própria casa. Transformando horas em cifras, calculou-se que esse trabalho gera US$ 10,8 trilhões (cerca de R$ 50 tri) à economia global.

Divisão é mais igualitária entre casais da classe A

A organização aponta também um fato que, desde a década de 1970 no Brasil, os movimentos feministas debatem: a divisão de afazeres domésticos entre casais heterossexuais é um dos principais pilares para sustentar a desigualdade de gênero.

Socióloga pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e especialista em Gênero e Igualdade pela Universidade Autônoma de Barcelona, Fernanda Sucupira afirma que foram justamente as discussões de cunho feminista que geraram pressão social para melhorar o cenário, inclusive quando pensamos em políticas públicas como as creches, por exemplo.

Quando o assunto é especificamente cuidado dos filhos, a pesquisa “Viver em São Paulo: Mulher” traz outro dado positivo. O estudo apresenta uma crescente melhora: em 2018, 12% dos paulistanos percebiam que havia uma divisão igualitária, em 2019 o percentual foi para 20%, agora, em 2020, chegou a 37%.

Começou a ficar mais claro que lavar a louça, varrer a casa ou cuidar dos filhos, por exemplo, não eram trabalhos da natureza feminina. Mesmo que lentamente e de forma insuficiente, percebemos um aumento da participação masculina dentro de casa, especialmente na camada mais rica da população.

Fernanda Sucupira.

O fator classe apontado pela socióloga também tem destaque na pesquisa da Rede Nossa São Paulo: 53% da população das consideradas classe A e B percebem uma divisão mais igualitária dos afazeres domésticos. Uma leitura possível para esse indicador é a de que são as mulheres mais ricas que possuem maior poder de consumo e, por isso, mais acesso a serviços educacionais, por exemplo, de maior qualidade.

Por isso, são elas que têm mais oportunidade de serem expostas a novas experiências e ideias, que ajudam a criar pensamento mais crítico em relação ao que é socialmente destinado a homens e a mulheres.

 

Direitos iguais para todos e responsabilidades também

Pensando em tentar espalhar a ideia de que existem outras configurações de divisão de trabalho doméstico para diferentes realidades, a campanha Pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico foi criada em 2017. A iniciativa é fruto de uma coalizão entre as Universidades Federais do Ceará e de Pernambuco junto com 28 organizações sociais que atuam no Nordeste, especialmente em regiões rurais.

O plano é o de conseguir incluir o debate sobre afazeres domésticos em atuações que as próprias ONGs já realizavam em campo. Por exemplo, sempre que alguma organização reunia grupos de mulheres para promover ação de capacitação, eram distribuídos folhetos ilustrativos com desenhos em que um homem e uma mulher aparecem, juntos, lavando a louça.

“Direitos são para mulheres e homens. Responsabilidades também” é o lema da campanha que aparece nos panfletos. Também está presente em camisetas e ecobags que distribuem e em folhetos informativos. Glauce Arzua, gestora de engajamento público da organização social ActionAid, que luta no combate contra pobreza em 43 países, e uma das criadoras da campanha Pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico, conta que a proposta do projeto não é impor algo às mulheres.

“A campanha vem no sentido de sensibilizar e não confrontar. Nós queremos que as mulheres tenham informação necessária para, caso queiram, saberem como dialogar dentro de casa e falar: ‘olha, estou sobrecarregada de trabalho, como nós podemos mudar isso? Como podemos melhorar essa divisão de tarefas aqui dentro?'”, conta.

A importância de realizar trabalhos como os da campanha é reforçada por Lorena Lima Moraes, que é cientista social pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), professora da UFRPE-UAST (Universidade Rural de Pernambuco – Unidade Acadêmica de Serra Talhada) e especializada em pesquisa sobre gênero no meio rural. Principalmente porque os trabalhos domésticos fora dos centros urbanos tendem a ser mais pesados por conta de questões específicas da falta de assistência e políticas públicas eficientes no meio rural.

Um desses problemas é a falta de água encanada. Segundo pesquisa liberada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2019, o Nordeste brasileiro, onde a campanha Pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico atua, possuía cerca de 12 milhões de pessoas sem acesso à abastecimento de água, em 2018.

“A questão de falta de saneamento básico afeta diretamente essas mulheres do meio rural, isso significa que elas ainda precisam caminhar e carregar baldes com litros de água para conseguir ter em casa,” diz Lorena.

Ela conta que, durante as pesquisas em campo, é possível observar que muitas dessas mulheres possuem participação política efetiva nas comunidades. Estão sempre pensando em melhorias de condição de vida para a comunidade no geral ou para a infraestrutura local —- só esquecem de pensar nelas mesmas.

Percepção é de mais violência de gênero.

Um fato curioso sobre a pesquisa “Viver em São Paulo: Mulher” é que 25% dos paulistanos afirmam sentir uma melhoria na qualidade de vida de mulheres na cidade. O problema é que essa percepção não conversa com outro dado do estudo: 83% dizem que a violência contra mulher vem aumentando desde 2019. Mas, então, se os casos de assédio e até mesmo de agressões aumentaram, como pode a qualidade de vida ter melhorado?

Para as especialistas ouvidas por Ecoa, esse é mais um indicativo de que a vida privada dentro de casa ainda é considerada mais importante do que a pública. Com a mudança gradativa de comportamento relacionado à divisão igualitária do trabalho entre casais heterossexuais, consequentemente, passa-se a entender que a vida, de fato, melhorou.

“Quando pensamos em casas onde existe uma configuração de compartilhamento de afazeres, conseguimos enxergar que as mulheres conseguem realizar outros tipos de atividades que não estão ligadas ao cuidado do outro. Ela tem tempo de cuidar de si mesma, estudar, se capacitar para atingir posições mais altas de trabalho ou até mesmo fazer nada”, diz a cientista social Lorena Lima Moraes. E é por isso que repensar divisão de trabalhos domésticos se mostra um dos passos iniciais para reduzir a desigualdade de gênero em âmbitos privados e públicos.

Glauce Arzua, da campanha Pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico, vai além ao afirmar que essa não só é uma questão de violência, como pode ser a origem para outros tipos de violência, porque destinar os afazeres da casa apenas para elas significa uma ausência de autonomia, que as “torna reféns e obedientes”.

Ela ainda comenta que, por mais que a intenção principal seja contribuir para que mulheres tenham condições melhores de vida, os homens também ganham quando começam a entender melhor o funcionamento de uma casa.

“Um homem que viveu em casa uma experiência de divisão de tarefas, e percebe a diferença e complementaridades dos gêneros, com certeza, vai expressar isso na vida pública de uma forma completamente mais humanizada e correta. Quando pensamos em gestores públicos, por exemplo, ele vai conseguir entender muito melhor as complexidades de pensar em uma cidade que não seja hostil para mulheres, vai entender a importância de pagar igualmente os funcionários homens e mulheres”, diz. 

Paula Rodrigues – De Ecoa, em São Paulo

 


9 de março de 2020

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